Minha mãe costumava dizer que salamargo era pior que fel, mas era um bom laxante, incomparavelmente.
Para minha velha, não havia nada mais amargo do que salamargo. Talvez ela usasse essa comparação para aliviar certas agruras da vida ou não visse as dificuldades que a vida lhe impunha como um fardo e sim como um desafio.
O certo é que minha mãe nunca se deixou tomar pela amargura. Sempre tinha uma história de gente encantada ou do curupira que deixou um rastro de tabaco e cachaça próximo da sua casa, no Rio Madeira.
O salamargo pode ser pior que o fel, mas é o fel que tem feito da vida humana, ou de algumas vidas humanas, uma representação de amargura, ressentimento e ódio. É o fel que muita gente anda regurgitando pelas esquinas e caminhos lúgubres do sofrimento existencial.
Não posso imaginar de outra forma um ser que perdeu o amor ou que dele nunca fez seu parceiro. Que vive a infelicitar o mundo com gestos racistas, que despeja sua bílis contra mulheres e transexuais, que agride crianças, idosos e mesmo os bichinhos que nada de mal fazem à natureza.
Como pode um indivíduo não defender a pátria que ajudou a construir, que seus pais, avós, tataravós e toda sua ancestralidade dedicaram amor e honra? Como pode esse indivíduo abraçar a traição e o ódio à nação que tanta beleza tem, com sua diversidade cultural e seu jeito diferente de falar, comer, vestir e viver?
Esse gosto amargo de fel é pior que salamargo.
Minha mãe morreu sem conhecer coisa mais amarga do que salamargo. Morreu sem deixar que a amargura lhe dominasse a vida. Ela teria sofrido muito, ou talvez dado boas risadas, se chegasse a conhecer o “patriota” de hoje, gente mais amarga que salamargo.
Escrevo essa crônica pensando nos eleitores de Flávio Bolsonaro, que também é conhecido como Flávio Rachadinha, em razão de uma de suas delinquências.
A amargura tomou conta dessa gente.
Perderam o sentimento em toda sua dimensão. Fizeram do ódio um motivo de vida. Não conseguem ver a beleza de um beija-flor e ouvir a melodia das suas asas em movimento.
Se vestem com as cores da nação, mas votam num lesa-pátria. Sequer leram os versos de Olavo Bilac ou se leram não tiveram alma para se sensibilizar.
“Ama, com fé e orgulho, a terra em que nasceste!
Criança! não verás nenhum país como este!
Olha que céu! que mar! que rios! que floresta!
A Natureza, aqui, perpetuamente em festa,
É um seio de mãe a transbordar carinhos.”
O gosto amargo de fel lhes deixou em estado de constipação mental. A falta de amor ao país que nasceram vai longe e mesmo a mãe que não é a pátria é agredida na sua existência de mulher. Sim, as mulheres são violentadas a cada sete segundos e esses apátridas aplaudem o seu semelhante agressor.
Quanta amargura. Quanto ódio contra si mesmo, quanto desespero sem causa.
Mas sei que nem tudo é fel, amargura e ódio. Acredito na força do amor. Aprendi com a mamãe, aquela mulher que só conhecia o amargo do salamargo. Nunca se deixou abater pelo desamor. Me deixou esse legado de esperança.
Sigamos juntos. O amor vencerá.
Lúcio Carril
Sociólogo





