A primavera de 2026 deverá apresentar condições climáticas contrastantes entre as regiões brasileiras. Enquanto o Sul do país tem previsão de chuvas acima da média, especialmente em Santa Catarina e no Rio Grande do Sul, o extremo Norte deve enfrentar redução significativa dos volumes de precipitação. O período também deve ser marcado por temperaturas mais elevadas em grande parte do Brasil e pela influência do fenômeno El Niño.
O prognóstico climático para outubro, novembro e dezembro foi apresentado nesta quinta-feira (24), durante reunião técnica conjunta do Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos (CPTEC), do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) e da Fundação Cearense de Meteorologia e Recursos Hídricos (Funceme).
As informações são divulgadas mensalmente e buscam antecipar tendências climáticas de médio prazo a partir de modelos numéricos. O documento é elaborado com base em discussões técnicas, que consideram as condições climáticas observadas, previsões dos modelos utilizados pelas instituições brasileiras e dados de modelos globais de instituições internacionais.
As reuniões também contam com a participação de meteorologistas de diferentes regiões do país e de instituições como o Centro Gestor e Operacional do Sistema de Proteção da Amazônia (Censipam) e o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa).
Chuvas acima da média no Sul
Para a Região Sul, o prognóstico aponta condições favoráveis à ocorrência de chuvas acima da média durante a primavera. Santa Catarina e Rio Grande do Sul podem registrar os maiores volumes, com acumulados que podem superar em até 200 milímetros a média esperada para o trimestre.
Segundo o meteorologista Caio Coelho, do CPTEC/Inpe, diferentes modelos e instituições apontam para a possibilidade de volumes expressivos de chuva na região durante a estação.
A previsão atual, no entanto, indica volumes inferiores aos registrados na primavera de 2023, quando o Sul enfrentou um período de chuvas excepcionais. Naquele ano, o excesso chegou a cerca de 300 milímetros em algumas áreas.
Em Porto Alegre (RS), por exemplo, a estação meteorológica convencional do Inmet registrou 597,2 milímetros de chuva durante a primavera de 2023. O volume ficou 65% acima da média histórica sazonal, de 362,7 milímetros.
Norte deve ter redução das chuvas
No extremo Norte do país, a tendência é oposta. O prognóstico indica déficit de chuvas em toda a região, com reduções que podem chegar a 200 milímetros no norte e nordeste do Amazonas e no oeste e centro-sul do Pará.
A climatologia histórica dessas áreas varia entre 200 e 400 milímetros de chuva durante o trimestre. Uma redução significativa dos volumes pode trazer impactos para atividades que dependem das condições dos rios, incluindo o transporte fluvial.
Para o Sudeste, também existe previsão de chuvas acima da média em parte da região. No entanto, por se tratar de uma área de transição entre diferentes regimes climáticos, os especialistas apontam possibilidade de maior irregularidade na distribuição das precipitações.
Temperaturas podem ficar até 2°C acima da média
Além das diferenças na distribuição das chuvas, a primavera deve ser marcada por temperaturas elevadas. A previsão indica que grande parte do território brasileiro poderá registrar médias de até 2°C acima da climatologia para o período.
De acordo com Caio Coelho, a estação deve ser mais quente, com possibilidade de ocorrência de ondas de calor.
Influência do El Niño
O El Niño é caracterizado pelo aquecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico na região equatorial. O fenômeno altera a circulação atmosférica e pode modificar os padrões de chuva e temperatura em diferentes partes do planeta.
O episódio registrado neste ano foi confirmado em junho e tem previsão de atingir seu ápice entre outubro e dezembro, podendo permanecer ativo no início de 2027.
Dados da Administração Oceânica e Atmosférica Nacional dos Estados Unidos (NOAA) indicam 90% de possibilidade de que a classificação do fenômeno seja elevada para muito forte. Segundo a agência, existe potencial para que o episódio esteja entre os mais intensos desde o início das medições, em 1950.
O aquecimento das águas do Pacífico Tropical favorece movimentos de convecção, com a elevação de massas de ar quente e úmido e a formação de grandes sistemas de nuvens. Essas condições podem contribuir para o aumento das chuvas no Sul do Brasil.
A atuação de frentes frias também pode favorecer grandes volumes de precipitação. Durante a primavera, esses sistemas podem estar associados à formação de complexos convectivos de mesoescala, capazes de provocar tempestades abrangentes e, em alguns casos, queda de granizo.
Embora esses sistemas sejam comuns no Sul durante a primavera, a presença do El Niño tende a reforçar características que favorecem um centro-sul do Brasil mais úmido e o extremo Norte mais seco.
El Niño ocorre em cenário de aquecimento global
Outro aspecto destacado pelos especialistas é a ocorrência do atual El Niño em um planeta que já apresenta temperaturas mais elevadas devido ao aumento da concentração de gases de efeito estufa na atmosfera.
Segundo Caio Coelho, as anomalias observadas nas temperaturas das águas subsuperficiais do Pacífico apresentam características incomuns. O meteorologista ressalta, porém, que a intensidade do El Niño não determina diretamente a magnitude dos impactos climáticos.
O episódio de 2023/2024, por exemplo, não estava entre os mais intensos registrados, mas foi acompanhado por volumes expressivos de chuva na Região Sul durante a primavera de 2023.
Acompanhar os alertas é fundamental
O prognóstico climático apresenta uma tendência geral para os próximos três meses, mas não permite determinar com precisão quando e onde ocorrerão os eventos de chuva ou de calor.
Para acompanhar as condições meteorológicas com maior detalhamento, os especialistas recomendam consultar as previsões para os próximos dias, as projeções subsazonais para as semanas seguintes e os alertas oficiais emitidos pelos órgãos de defesa civil.
No Amazonas e em outras áreas da Região Norte, o acompanhamento das condições dos rios também pode ser importante diante da possibilidade de redução das chuvas e de impactos sobre o transporte fluvial.
Serviço
A população pode receber alertas da Defesa Civil por SMS. Para isso, basta enviar o CEP da localização para o número 40199.
Também é possível acompanhar os alertas meteorológicos divulgados pelo Inmet, as previsões sazonais e subsazonais do CPTEC/Inpe e as previsões de riscos geo-hidrológicos do Cemaden.
Os órgãos também disponibilizam boletins conjuntos e notas técnicas com atualizações sobre o El Niño e as previsões climáticas sazonais.





