A Defensoria Pública do Estado do Amazonas (DPAM) instaurou um Procedimento Coletivo Estruturante (PCE) para investigar o número expressivo de afastamentos de profissionais da rede municipal de ensino de Manaus por problemas de saúde mental. A iniciativa é conduzida pelo Grupo de Trabalho Intersetorial de Defesa da Educação e Cidadania (Gidec) e busca identificar as causas do adoecimento, avaliar as condições de trabalho e verificar a existência de políticas públicas adequadas de prevenção, atendimento e acompanhamento psicológico e psiquiátrico.
Dados da Junta Médico-Pericial da Secretaria Municipal de Administração e Gestão (Semad), citados no procedimento, apontam que, somente em 2025, foram registrados pelo menos 289 afastamentos de professores da rede municipal relacionados à depressão e outros 636 associados a transtornos de ansiedade.
A investigação pretende dimensionar o problema e verificar quais medidas estão sendo adotadas pelo poder público para garantir condições adequadas de trabalho e assistência aos profissionais da educação.
Defensoria aponta problemas nas condições de trabalho
De acordo com o defensor público Arlindo Gonçalves, coordenador do Núcleo da Saúde e integrante do Gidec, a abertura do procedimento faz parte do trabalho de diagnóstico realizado pela instituição sobre os fatores que afetam a qualidade do ensino no Amazonas.
Segundo ele, uma reunião com representantes do Sindicato dos Trabalhadores em Educação do Amazonas (Sinteam) identificou problemas relacionados à estrutura e à organização do trabalho na rede municipal de ensino.
Entre as questões apontadas estão a falta de profissionais, incluindo professores, pedagogos, assistentes sociais e psicólogos, além da insuficiência de pessoal de apoio para estudantes que necessitam de acompanhamento para a inclusão na rede regular de ensino.
Também foram mencionadas deficiências estruturais nas escolas e a falta de reserva adequada da carga horária para que os professores realizem atividades pedagógicas.
“Como parte desse trabalho de levantamento e investigação, a série de problemas relacionados à rede pública de ensino traz a falta de pessoal, envolvendo professores, pedagogos, assistentes sociais e psicólogos; a falta de profissionais de apoio para estudantes que necessitam desse acompanhamento para serem inseridos na rede regular de ensino; questões estruturais e a falta de reserva da carga horária para que os professores possam realizar suas atividades pedagógicas”, explicou Arlindo Gonçalves.
O defensor acrescentou que o procedimento pretende identificar as causas do adoecimento dos profissionais e verificar quais medidas precisam ser oferecidas pelas secretarias responsáveis pela educação.
Prefeitura e secretarias terão de prestar informações
Como primeira medida, a Defensoria solicitou à Prefeitura de Manaus informações sobre a evolução dos afastamentos em 2026. O município deverá responder, no prazo de 15 dias, a questionamentos relacionados às condições de trabalho e à organização da rede municipal de ensino.
Entre os pontos que serão analisados estão o possível déficit de servidores, o cumprimento da Hora de Trabalho Pedagógico (HTP) e a realização de atividades administrativas pelos professores.
O procedimento também vai investigar relatos e registros de violência, ameaças, conflitos e assédio no ambiente escolar, além das condições de segurança e infraestrutura das unidades educacionais.
Outro eixo da apuração envolve a existência e o funcionamento de políticas públicas, programas e serviços municipais destinados à prevenção, ao atendimento e ao acompanhamento da saúde mental dos docentes.
A Defensoria também pretende analisar os procedimentos adotados nos casos de atendimento médico, afastamento por motivos de saúde, readaptação profissional e retorno ao trabalho.
Para reunir os dados necessários, o Gidec solicitou informações à Secretaria Municipal de Educação (Semed), à Secretaria Municipal de Administração (Semad), à Junta Médico-Pericial e à Secretaria Municipal de Saúde (Semsa). Os órgãos também terão prazo de 15 dias para fornecer índices e quantitativos que subsidiem a investigação.
Gidec acompanha desafios da educação no Amazonas
Implementado em agosto de 2026, o Grupo de Trabalho Intersetorial de Defesa da Educação e Cidadania foi criado para acompanhar problemas estruturais da educação amazonense e contribuir para a garantia dos direitos de estudantes e profissionais.
A iniciativa considera, entre outros fatores, os resultados do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), que apontaram o Amazonas com desempenho de 3,8 pontos no ensino médio, o pior resultado do país, conforme os dados mencionados no contexto de criação do grupo. O indicador considera o desempenho dos estudantes em Língua Portuguesa e Matemática e as taxas de aprovação escolar.
Além de investigar questões relacionadas à saúde mental dos profissionais, a Defensoria busca avaliar se os recursos mínimos obrigatórios destinados à educação estão sendo aplicados corretamente, bem como acompanhar a destinação e a utilização desses valores.
Entre as frentes de atuação do Gidec estão o acompanhamento do piso salarial dos profissionais da educação, a análise da falta de professores, o monitoramento da merenda escolar e a cobrança pela retomada de obras de creches e escolas que estão paralisadas.
Com o procedimento, a DPAM pretende reunir informações que permitam identificar os fatores associados ao adoecimento dos profissionais e avaliar a necessidade de medidas para melhorar as condições de trabalho e fortalecer as políticas de saúde mental na rede municipal de ensino.





