Sementes do Amazonas leva educação ambiental a estudantes da capital e do interior

Projeto da Defensoria Pública do Amazonas aborda mudanças climáticas, preservação ambiental e direitos das populações vulneráveis
Educação ambiental no Amazonas ganha força com projeto

O verão amazônico chegou com força ao Amazonas em 2026. Em Manaus, os termômetros marcaram 37,6°C na terça-feira (1º/09), a maior temperatura registrada no Estado neste ano, segundo dados do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet).

Diante do cenário de vulnerabilidade climática, a Defensoria Pública do Amazonas (DPE-AM) desenvolve ações de educação ambiental em escolas públicas e espaços comunitários da capital e do interior.

Por meio do projeto Sementes do Amazonas, estudantes participam de atividades que abordam o papel da Defensoria Pública na proteção do meio ambiente e das populações vulneráveis, a participação da sociedade na preservação ambiental e os impactos das mudanças climáticas na vida das pessoas.

Educação ambiental e cidadania

De acordo com a 2ª subdefensora pública geral, Sarah Lobo, o Amazonas está entre os estados que mais sofrem com os efeitos das mudanças climáticas, incluindo períodos de cheias e estiagens severas.

Para ela, aproximar a Defensoria Pública dos estudantes, que estão em processo de formação da cidadania, contribui para a construção de uma sociedade mais consciente e sustentável.

“A floresta amazônica é a maior floresta tropical do mundo e abriga também a maior biodiversidade. A degradação do meio ambiente afeta, principalmente, as comunidades mais vulneráveis. Nesse contexto, a Defensoria Pública do Amazonas, que tem a missão constitucional de promoção dos direitos humanos, realiza essa educação em direitos e essa conscientização ambiental para os estudantes de todo o Amazonas”, destacou.

Projeto Sementes do Amazonas

O projeto teve início no dia 24 de julho, antes do registro das temperaturas mais elevadas no Estado. O lançamento ocorreu na Escola Estadual Sant’Ana, no bairro Petrópolis, zona sul de Manaus, onde mais de 40 estudantes participaram da aula-piloto sobre educação ambiental.

Na ocasião, a estudante Letícia Rezende, de 19 anos, destacou o potencial transformador da iniciativa. Parte da família dela vive em Tapauá, município localizado a 449 quilômetros de Manaus, na Calha do Purus.

Segundo Letícia, os efeitos das mudanças climáticas já fazem parte da realidade do município. Durante os períodos de seca, as queimadas aumentam e a população enfrenta dificuldades de locomoção em razão da redução do nível dos rios.

“Precisamos cuidar do meio ambiente, principalmente nós, que moramos no meio da Amazônia e precisamos da nossa floresta preservada e em pé. Eu tenho uma família ribeirinha, que sofre muito com essa questão, porque está começando a época das queimadas em Tapauá, onde boa parte da minha família vive. Achei muito legal essa palestra, porque nos ajudou a entender mais sobre esse problema, e eu espero que essas palestras cheguem por lá também”, afirmou.

Interior do Amazonas também recebe ações

Segundo o 1º subdefensor público geral, Helom Nunes, o projeto reforça a missão institucional da Defensoria Pública e amplia o acesso à educação ambiental como ferramenta de cidadania.

“Proteger a Amazônia é, antes de tudo, proteger quem vive nela. Com o Sementes do Amazonas, a Defensoria Pública leva educação ambiental ao interior como instrumento de cidadania, prevenção e garantia de direitos, fortalecendo aqueles que primeiro sentem os impactos dos danos ambientais”, pontuou.

Após o lançamento em Manaus, defensores públicos e servidores participaram de uma capacitação ministrada pela defensora pública e diretora da Escola Superior da Defensoria Pública (Esudpam), Karoline Santos.

Durante a formação, foram apresentados os eixos temáticos do projeto, os materiais didáticos que podem ser utilizados nas atividades e a metodologia da aula-piloto realizada na Escola Estadual Sant’Ana.

A defensora pública Daniele Fernandes acompanhou a capacitação virtualmente, diretamente de Tabatinga. Segundo ela, o projeto está alinhado às atribuições previstas na Lei Complementar nº 80/94, que estabelece entre as funções institucionais das Defensorias Públicas a promoção, difusão e conscientização dos direitos humanos, da cidadania e do ordenamento jurídico.

“Ao desenvolver o projeto ‘Sementes do Amazonas’, a Defensoria cumpre essa função institucional, promovendo a educação ambiental como instrumento de cidadania e de proteção aos direitos das comunidades que dependem da floresta e dos rios para sua existência”, concluiu.

Durante o mês de agosto, as atividades chegaram ao interior do Estado. O projeto foi realizado no Ceti Professora Neuza Alves Barroso, em Eirunepé, e na Escola Estadual Duque de Caxias, em Humaitá.

Mais de 400 estudantes participaram das duas palestras realizadas nos municípios, ministradas pelas defensoras públicas Marcela Vignoli e Fernanda Carvalho. A previsão é que a iniciativa avance para outras cidades do Amazonas nos próximos meses.

Juventude participa do debate climático

De volta a Manaus, o projeto também esteve presente na Conferência Local das Juventudes (LCOY), realizada na Escola Estadual Nossa Senhora Aparecida, na zona sul da capital.

Os defensores públicos Renata Visco e Eliaquim Antunes conduziram uma palestra sobre Justiça Intergeracional e Direito à Natureza para estudantes da 1ª e 2ª séries do Ensino Médio.

A LCOY representa uma etapa territorial do processo de participação das juventudes nas discussões relacionadas ao clima e ao meio ambiente. As conferências locais reúnem jovens para identificar desafios, elaborar propostas e ampliar a participação desse público nos espaços de decisão sobre a agenda climática.

Em Manaus, a edição deste ano é realizada pela rede Global Shapers Community Manaus.

Para a defensora pública e diretora de Estratégia e Inovação Organizacional da instituição, Renata Visco, o projeto tem caráter educativo e busca aproximar os estudantes de um debate que considera urgente, especialmente para quem vive na região amazônica.

“Já podemos ver os estudantes se reconhecendo como agentes de transformação. Quando falamos de justiça climática com uma linguagem acessível e conectada à realidade amazônica, os jovens entendem que proteger o meio ambiente é também proteger direitos: à água, à saúde, à permanência no território. Esse impacto se estende às famílias e às comunidades, porque cada aluno leva essa semente para casa”, acrescentou.

Educação ambiental ainda enfrenta desafios

Dados do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) mostram que a forma mais comum de abordar a educação ambiental nas escolas ocorre por meio de projetos transversais ou interdisciplinares, presentes em 64% dos colégios.

Em seguida, aparecem os conteúdos inseridos no currículo, registrados em 52% das instituições. Apenas 11% das escolas informaram possuir um componente curricular específico sobre o tema, enquanto 10% desenvolvem a educação ambiental como eixo principal.

Enquanto o assunto ainda ocupa espaço limitado nas salas de aula, as mudanças climáticas aumentam os desafios enfrentados pela população amazônica.

Agências ambientais globais apontam para a possibilidade de um El Niño forte em 2026, com possibilidade de continuidade até o início de 2027. Para a Amazônia, a previsão de uma seca severa pode ampliar as dificuldades enfrentadas pelas comunidades do interior do Amazonas.

Com uma vazante intensa, moradores podem enfrentar problemas como escassez de água potável, dificuldade no transporte e no abastecimento de alimentos, além da paralisação ou redução de serviços básicos em razão do baixo nível dos rios.

Humaitá enfrenta impactos da seca

Em Humaitá, município localizado a 590 quilômetros de Manaus, uma das cidades que recebeu ações do projeto, a Prefeitura decretou situação de emergência em saúde pública por até 180 dias devido à seca que atinge a Calha do Madeira.

A previsão é de que pelo menos 200 comunidades ribeirinhas da região sejam diretamente afetadas pela redução do nível do rio, principal meio de acesso às localidades.

Em Manaus, o Governo do Amazonas decretou, em junho deste ano, estado de emergência climática e ambiental nos 62 municípios do Estado.

A medida foi adotada de forma preventiva diante das previsões meteorológicas relacionadas ao avanço do El Niño em 2026, fenômeno que pode se prolongar até o início de 2027.

Nesse cenário, iniciativas de educação ambiental como o projeto Sementes do Amazonas buscam aproximar crianças e jovens das discussões sobre preservação, mudanças climáticas e direitos, fortalecendo a participação da sociedade na proteção da Amazônia.

By ContextoAm

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